O que é Polifarmácia
Polifarmácia é o uso simultâneo de múltiplos medicamentos pelo mesmo paciente. O critério mais amplamente utilizado na literatura científica define polifarmácia como o uso de 5 ou mais medicamentos ao mesmo tempo, enquanto o uso de 10 ou mais é chamado de polifarmácia excessiva.
- Prevalência elevada: Entre 50% e 60% dos idosos acima de 65 anos utilizam 5 ou mais medicamentos simultaneamente
- Nem sempre evitável: Muitos idosos têm múltiplas condições crônicas (hipertensão, diabetes, cardiopatia, artrose) que exigem tratamentos específicos
- O problema não é o número em si: A questão central é a adequação e a necessidade de cada medicamento, e não apenas a quantidade
- Fitoterápicos e suplementos contam: Produtos de venda livre, vitaminas e fitoterápicos também integram o perfil medicamentoso e devem ser considerados na avaliação
ⓘ No Brasil, estima-se que cerca de 36% dos idosos acima de 60 anos utilizam 5 ou mais medicamentos. Esse número tende a aumentar com a idade e com a presença de múltiplas doenças crônicas.
Por que a Polifarmácia é Perigosa em Idosos
O organismo do idoso processa os medicamentos de forma diferente do adulto jovem. Essas alterações fisiológicas tornam os idosos muito mais vulneráveis aos efeitos adversos e às interações entre medicamentos.
Alterações Farmacocinéticas no Envelhecimento
- Função renal reduzida: Os rins filtram os medicamentos mais lentamente, causando acúmulo no organismo e toxicidade
- Metabolismo hepático diminuído: O fígado processa os remédios com menor eficiência, prolongando seu efeito
- Maior proporção de gordura corporal: Medicamentos lipossolúveis se acumulam mais e têm ação mais prolongada
- Menor albumina sérica: Altera a ligação dos medicamentos às proteínas do sangue, aumentando a concentração livre e o risco de toxicidade
Consequências Clínicas da Polifarmácia
- Interações medicamentosas: Com 5 medicamentos, o risco de interação clinicamente relevante é de cerca de 50%; com 8 ou mais, ultrapassa 100%
- Cascata terapêutica: Um efeito adverso de um medicamento é interpretado como nova doença e tratado com outro medicamento — criando um ciclo prejudicial
- Maior risco de quedas: Medicamentos que causam sedação, tontura ou hipotensão aumentam o risco de quedas e fraturas
- Maior risco de internação: Reações adversas a medicamentos são responsáveis por até 10-17% das internações hospitalares em idosos
- Redução da adesão: Esquemas complexos de vários medicamentos em horários diferentes dificultam a adesão correta ao tratamento
- Impacto financeiro: O custo de medicamentos desnecessários sobrecarrega o paciente e a família
⚠️ A cascata terapêutica é um ciclo comum: um medicamento causa um efeito adverso (ex: metoclopramida causa rigidez), que é tratado com outro medicamento (ex: levodopa), que por sua vez traz novos efeitos adversos. A revisão especializada identifica e interrompe esse ciclo.
Medicamentos Potencialmente Inapropriados — Critérios de Beers
Os Critérios de Beers são uma lista elaborada pela Sociedade Americana de Geriatria que identifica medicamentos que, em geral, apresentam riscos que superam os benefícios para idosos. No Brasil, o Consenso Brasileiro de Medicamentos Potencialmente Inapropriados também é referência.
Alguns exemplos de classes com risco elevado em idosos:
Benzodiazepínicos
Diazepam, clonazepam, alprazolam. Risco de quedas, confusão mental, dependência e sedação excessiva. Alternativas mais seguras existem.
Anti-histamínicos 1ª geração
Prometazina, hidroxizina, difenidramina. Causam sedação excessiva, confusão mental e retenção urinária em idosos.
AINEs prolongados
Ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno. Risco elevado de sangramento gastrointestinal, lesão renal e aumento da pressão arterial.
Relaxantes musculares
Carisoprodol, ciclobenzaprina. Eficácia questionável em idosos; causam sedação, confusão e risco de quedas.
Nota importante: os Critérios de Beers servem como guia de alerta, não como proibição absoluta. Cada caso é avaliado individualmente — nem sempre o medicamento deve ser suspenso. O risco deve ser pesado contra o benefício no contexto do paciente.
O que Inclui a Revisão de Medicamentos
A revisão de medicamentos é uma avaliação estruturada e sistemática de todos os fármacos que o idoso utiliza. Vai muito além de simplesmente reduzir o número de remédios — o objetivo é garantir que cada medicamento em uso seja seguro, necessário e adequado para aquele paciente.
Etapas da Revisão Especializada
- Levantamento completo: todos os medicamentos prescritos, os de venda livre, fitoterápicos e suplementos vitamínicos — incluindo aqueles que o paciente usa "às vezes"
- Identificação de duplicidades terapêuticas: dois ou mais medicamentos da mesma classe sem justificativa clínica
- Avaliação de interações medicamentosas: identificação das interações clinicamente relevantes (que afetam a eficácia ou aumentam o risco de efeitos adversos)
- Verificação de medicamentos potencialmente inapropriados: usando os Critérios de Beers e o Consenso Brasileiro como referências
- Avaliação da adesão: o paciente está tomando os medicamentos corretamente? Há dificuldades com horários, embalagens ou custos?
- Revisão das doses: ajuste para a função renal e hepática atual do paciente
- Simplificação do esquema: quando possível, reduzir o número de tomadas diárias melhora a adesão e a qualidade de vida
Benefícios da Revisão Especializada
A revisão de medicamentos realizada por médico com Especialização em Geriatria traz benefícios que vão além da simples redução de comprimidos.
- Redução de efeitos adversos: menos reações indesejadas, como tontura, confusão, constipação e sangramento
- Prevenção de quedas: a retirada ou substituição de medicamentos que comprometem o equilíbrio reduz diretamente o risco de quedas
- Redução de internações: reações adversas a medicamentos são causa frequente de internações evitáveis em idosos
- Melhora da adesão: esquemas mais simples são mais fáceis de seguir corretamente
- Redução de custos: eliminação de medicamentos desnecessários representa economia real para o paciente e a família
- Maior qualidade de vida: menos efeitos adversos significa mais energia, melhor cognição e maior autonomia