Ele estava bem ontem. Hoje acordou falando coisas sem sentido, não reconheceu direito quem estava na sala, quis sair de casa "para ir trabalhar", ficou agitado — ou, ao contrário, apático e sonolento, olhando para o nada. A família se assusta e pensa logo em AVC ou em Alzheimer. Como médica com Especialização em Geriatria, quero explicar com calma o que costuma estar por trás de uma confusão mental de início súbito no idoso, o que fazer nas próximas horas e quando ir ao pronto-socorro sem pensar duas vezes.
Primeira coisa: confusão súbita não é "normal da idade"
Demência (como o Alzheimer) se instala ao longo de meses e anos. Uma confusão que aparece em horas ou poucos dias, que oscila ao longo do dia e piora à noite, tem outro nome: delirium. O delirium é um sinal de que algo está agredindo o organismo — e quase sempre existe uma causa tratável por trás. Encontrar essa causa é o que muda o desfecho.
Vá ao pronto-socorro agora se houver
- Fraqueza ou dormência em um lado do corpo, boca torta, fala enrolada ou dificuldade para falar — suspeita de AVC, ligue 192 (SAMU) imediatamente
- Queda com pancada na cabeça nos últimos dias (mesmo que "leve"), principalmente se usa anticoagulante
- Febre alta, calafrios, respiração rápida ou muita falta de ar
- Rebaixamento importante: não acorda direito, não responde, sonolência profunda
- Dor no peito, desmaio ou convulsão
- Agitação com risco de se machucar ou machucar alguém
Nesses casos, a avaliação hospitalar é o caminho certo. Não é "exagero" — é o que a situação pede.
As causas mais comuns que eu vejo no consultório
- Infecção. Em idosos, a infecção urinária ou a pneumonia muitas vezes não dão febre nem dor: o primeiro sinal é a confusão. É a causa número um.
- Medicamentos. Um remédio novo, uma dose aumentada, ou combinações: calmantes (benzodiazepínicos), remédios para dormir, alguns analgésicos opioides, antialérgicos antigos, relaxantes musculares, remédios para bexiga. Tudo isso pode confundir o idoso.
- Desidratação e alterações de sódio ou glicose. Pouca água no calor, diarreia, vômito, diurético em excesso, açúcar muito alto ou muito baixo.
- Dor não tratada e constipação (intestino preso). Parece simples, mas causa delirium com frequência — sobretudo em quem já tem alguma demência.
- Retenção urinária. A bexiga cheia que não esvazia, comum em homens com próstata aumentada.
- Privação de sono e mudança de ambiente. Internação, viagem, mudança de casa, muita visita — o cérebro idoso se desorganiza mais fácil.
- Álcool, tanto o excesso quanto a retirada abrupta.
Seu familiar ficou confuso e você não sabe se espera ou corre?
Se não há nenhum sinal de emergência da lista acima, me chame no WhatsApp: descreva o que aconteceu, desde quando, e mande fotos das caixas de remédios. Faço a avaliação por videochamada, oriento os próximos passos e digo com clareza se é caso de hospital.
Falar no WhatsApp →O que a família pode fazer nas próximas horas
- Não deixe o idoso sozinho. Mantenha alguém conhecido ao lado, com voz calma. Não confronte nem corrija com insistência ("não é dia de trabalhar!"): oriente com gentileza.
- Luz e referências. De dia, cortinas abertas; à noite, luz baixa acesa. Relógio e calendário visíveis, óculos e aparelho auditivo no lugar.
- Ofereça água e alimentação leve, com frequência e sem forçar.
- Verifique o intestino e a urina. Está evacuando? Está urinando em volume normal? Anote.
- Reúna todos os remédios e identifique qualquer novidade nas últimas duas semanas — isso é o primeiro suspeito que a médica vai investigar.
- Meça o que puder: temperatura, pressão e glicemia, se houver aparelho em casa.
- Não dê calmante por conta própria. Muitos pioram o delirium.
E depois que passa?
O delirium costuma melhorar quando a causa é tratada, mas pode demorar dias ou semanas para o idoso voltar ao normal — e às vezes ele revela uma fragilidade da memória que a família ainda não tinha percebido. Por isso, todo episódio de confusão aguda merece um acompanhamento depois: revisar os medicamentos, avaliar a cognição com calma e montar um plano para prevenir o próximo. É exatamente o que faço na avaliação geriátrica ampla, presencial em Rio Preto ou online.
Importante: a consulta online é para avaliação e orientação — não substitui atendimento de emergência. Se o idoso tiver falta de ar intensa, dor no peito, fraqueza súbita em um lado do corpo, fala enrolada, confusão que surgiu de repente, queda com pancada na cabeça ou sangramento, ligue para o SAMU 192 ou vá ao pronto-socorro mais próximo.